sábado, 12 de junho de 2010

O ponto cego

"Não fui uma escolha: fui o que sobrou depois do nada. [...]
Eu sou o que deixaram sob o tapete, o que à noite se esgueira pelos corredores chorando. Sou o riso no andar de cima muito depois que uma criança morreu. Sou o anjo no alto da escada de onde alguém acaba de rolar. Sou todos os que chegam quando ninguém suspeita: saem de trás das portas, das entrelinhas, do desvão. [...]
Eu sou o narrador e não preciso de plateia. Sou o espreitador, e não preciso olhar de frente. Vago pelos corredores e subo nos telhados, entro nos quartos, desço as escadas, limpo um canto de jardim - mas preservo o enigma.
Esse é o meu divertimento. Eu gosto do embaixo, do debaixo, do escuro. Meu lugar é onde se represa o tempo e a minha vontade se exerce.
Ali todos estão para sempre, e me olham e se olham, na qual importa o sonho e a vigília é nada."
Lya Luft

é estranho se encontrar por entre as linhas de um livro e pensar que a sua dor é muito mais bonita quando escrita e publicada por alguém mais inteira. mais sã.

2 comentários:

  1. Escritores raramente possuem a sanidade intacta.

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  2. +1 na Sissi.

    E de qualquer maneira, de que vale a sanidade sem o sucesso?

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